sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Sobre não escrever mais

Tinha um amigo poeta. 

Era mudo. 
Comia silêncio,
Bebia silêncio. 
Arrotava verso. 

Deitava silêncio,
dormia silêncio,
Sonhava verso. 

Trepava silêncio, 
Gozava silêncio,
Amava em verso. 

Um dia meu amigo falou,

Comeu barulho,
Bebeu barulho,
Arrotou silêncio. 

Deitou barulho,
Dormiu barulho,
Sonhou silêncio. 

Trepou barulho,
Gozou barulho,
Amou em barulho. 

Nasceu barulho,
Chorou barulho,

Morreu poeta,
Mudo. 

(Poema inacabado)