domingo, 29 de agosto de 2010

Canto do idiota!

Vou cantar uma canção que escrevi ,
Em uma das minhas doces noites de insônia
Uma canção feita de sonho não dormido,
Uma canção feita de sonhos não realizados,
Feita de promessas não prometidas,
Feita de lágrimas que não fui capaz de derramar,
Vou cantar-lhes a minha canção,
Que cantei quando ainda sonhava em ser criança,
Quando ainda sonhava em ser sonho,
A canção que cantei pra quem não era capaz de escutar,
A canção que cantei a idiotas e ignorantes que nunca foram capazes de ouvi-la,
Cantei-a durante tanto tempo, e tudo o que queria era não ter que cantá-la,
Pois tudo o que eu queria era achar alguém que fosse capaz de ouvi-la em mim,
Sem que precisasse tocar nota alguma ou dizer palavra alguma,
Vou cantar-lhes a minha canção ,
Que fiz pra ninguém e por ninguém...
Vou cantar-lhes ,pois sei que ela já está cantando dentro de mim,
Vou cantar-lhes pois esse canto mudo é tudo o que me resta...
Vou cantar para a mediocridade que se alastra dentro de mim,
Vou cantar para a descrença que é a minha única fé,
Vou cantar para a subversão que tenho e que tanto desprezo,
Vou cantar para os meus monstros,
Todos eles, os palpáveis e os imateriais,pois todos eles são na verdade um só,
Pois todos eles na verdade sou eu!
Vou cantar para os meus medos,
Para os meus pesadelos,
Para o muro alto e denso que construir ao meu redor,e que me afasta de inimigos que desconheço,
Vou cantar para essa mascara que um dia eu vesti,
E que agora se transforma lentamente no meu próprio rosto,
Vou cantar para minha doce solidão,
Vou cantar para a minha doce ingratidão,
Vou cantar para a minha doce misantropia,
Para o meu suicídio gradual,
Para a minha vida gradual,
Vou cantar-lhes os sonhos que não sonhei,
Vou cantar-lhes sobre os amores que não amei,
Vou cantar para os dias que dormir,
Vou cantar para as horas que pedir,
Vou cantar para todos e para ninguém!
Vou cantar só pra mim...
Vou cantar porque essa canção já se desfaz em mim,
Vou cantar porque essa canção já está cantando em mim,nos meus olhos...
Vou cantar pois cantar é só que me resta,
Vou cantar-lhes a minha canção...
Vou cantar porque já não consigo chorá-la e agora,
Só o que me resta e cantá-la,feito um idiota,feito uma criança,
Feito um cantor desafinado que erra todas as notas...
Vou cantar-lhes essa minha canção muda,
Cantar a musica dos meus olhos,
Cantar essa canção que não é da voz ,e sim dos meus olhos.
Vou cantar todas as minhas lágrimas ,
Cantarei todas elas aqui,na porcaria desse caderno velho,
Vou cantá-las todas aqui,porque os meus olhos já não dão mais conta de chorá-las e agora só querem cantá-las,
Vou encher os teus ouvidos vivos e sadios,
Com estas minhas notas mudas e vazias,
Com esta minha canção desafinada e idiota,
Mas já não me importo se serão capazes de ouvi-la,
Só me importo em cantá-la,para quem sabe assim parar de ouvi-la em mim.
Vou cantar este meu canto de idiota,
E o dedico a minha própria estupidez e leviandade,
Dedico a mim,
Que sou agora a figura do próprio idiota, que canta, sem saber cantar,
Que canta por não saber chorar,
Que canta a própria idiotice!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Compreensão da ignorância

Querer nada, é querer muito
Querer muito, é não querer nada
Tanto quero, nada tenho
Nada quero ,tudo tenho
Sinto muito ,nada sinto
Nada sinto?
Sinto muito...
Penso muito ,penso nada
Nada penso ,penso em muito
Nada vejo,vejo tudo
Tudo vejo ,vejo nada,
Entendo pouco,compreendo muito,
Compreendo tanto,
E de tanto compreender,
Nada entendi...
Nada pensei...de tanto pensar.
De tanto pensar cansei,
Cansei até mesmo de pensar no cansaço,
Apenas sinto um vazio,uma mistura de tédio e solidão,
Uma solidão de poeta sem a poesia,
Uma solidão de boêmio,sem a boemia,
Uma solidão de solitário.
De tanto querer companhia,
Subverti a companhia em solidão...
De tanto pensar no meu próprio pensar,
Nada pensei...
Nada pensarei.
De tanto querer o meu querer,nada quererei,
De tanto sentir o meu sentir,nada sentirei,
De tanto, ser tanto,
Nada sou,
Pouco sou,
De tanto compreender,nada entendi...
Por saber tanto,e tanto saber do meu saber,
Ignorei a minha própria ignorância.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Além da Superfície

Como é difícil explicar tudo aquilo que se pensou, mas não se verbalizou
Tudo que se disse ,
Que se disse em silencio,
Sem pronunciar palavra alguma,
Tudo aquilo que se disse com os olhos,
Com as mãos,
Com os pés,
Com os sorrisos,
Com os gestos
Tudo aquilo que se disse usando apenas o som do silencio ,como porta voz.
Tudo aquilo que se disse com o silencio,
Pois a voz não seria capaz de dizer,
E apenas serviria para deturpar a real essência daquilo que se queria dizer.
[A real essência da palavra que se queria pronunciar]
Apenas serviria para fazê-la perder-se entre timbres e tentativas mesquinhas de verbalizar, aquilo que não foi feito pra se pronunciar.
Pois quem seria capaz de descrever um pôr-do-sol ,sem fazê-lo se perder dentro da própria voz?
Dentro do abismo que pode ser a própria voz?
Dentro do abismo que pode ser o próprio pensar?
Quando penso em dizer,o que ainda não disse,
E quando finalmente deixo minha voz pronunciar o que antes era apenas uma idéia,um pensamento,
Perco a sua pureza,
E o que antes era tão verdadeiro,
Passa a ser falso ,vazio,banal e até mesquinho.
Que bom seria poder verbalizar um pensamento,uma emoção,uma idéia ou qualquer outra coisa...
Sem ,contudo,deixar que se perca a essência ,tão profunda e tão rara,
Que se esconde por trás da superfície ,tão rasa e tão barata, de uma palavra.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Nome próprio

O meu nome,
É tão meu,
É o meu nome próprio.
Cada letra do meu nome é tão minha...
o M, o I,o R,o T,o E,e o S.
Todas essas letras são tão minhas,assim,
como são minhas todas as outras letras
que constituem o resto do meu sobrenome.
E,ao mesmo tempo, o meu nome não é meu.
Pois cada letra é,por si só, uma infinidade de outros nomes,de outras possibilidades,
Que juntas podem formar o meu,ou o nome de outro,
E mesmo que formem o meu ,exatamente como ele é,
Ele ainda pode ser de outra ou de outro.
Pois cada vez que você repete o meu nome,
Ele deixa de ser meu e passa a ser seu.
Toda vez que você diz o meu nome,
[Durante o tempo que o leva para os seus lábios o pronunciar]
A tua voz,
Rouba a minha essência,
E o que antes era eu,
Passa a ser seu,a ser você.
Assim,como todas as vezes que repito o teu nome,
[Durante o tempo que leva para os meus lábios o pronunciar]
A minha voz rouba você,
Inteirinho pra mim,
E o que antes era teu,e tão teu,
Passa a ser meu,e só meu,
Pois o teu nome próprio,
É também o meu próprio nome,
E o meu próprio nome,
É o teu nome próprio.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um portão

O que é um portão?
Um portão é um objeto inanimado,imóvel estático.
Entretanto, um portão é também um símbolo.
Um símbolo de proteção,te protege de invasores noturnos,
Um portão é também fraqueza,pois te protege de inimigos invisíveis ,
Que talvez você nunca chegue a conhecer.

Um portão é uma idéia .
Uma idéia aberta,pra quem sabe usar de seus artifícios,
Como fazem os poetas para libertar aquilo que pensou em forma de poesia,
É uma idéia fechada,pra quem não pode ver muito alem dos próprios olhos,
Um portão também é inspiração.
Inspiração de quem sonhou com suas formas e cores,
E depois as realizou em forma de matéria simples e pura,em forma de portão.
Um portão é matéria.

É matéria ,repleto de átomos,que por sua vez são cada um,um universo inteiro e indivisível ,
A espera de alguém que os explore.
E cada átomo que constitui esse portão é também um pedaço do universo.
Um portão por tanto é um pedaço do universo.
Um pedaço do mistério que é vida,
Uma parte da resposta,uma parte da duvida.

É muito mais do que um portão,é um símbolo,é uma idéia ,é matéria,é inspiração,é a representação de um pedaço do próprio universo,é parte da resposta e parte da dúvida...
Um portão é profundo,é raso,é complexo, é simples,é tudo, é nada.

E, ainda assim,sendo tudo isso,e muito mais do que eu jamais serei capaz de ver ou verbalizar,

Um portão é apenas um portão,
Inanimado,estático ,parado, imóvel,
Apenas matéria,sem vida nem espírito...
Um portão,
É apenas um portão...

E nós, o que somos?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sou?Fui?Serei?Já sou!

Os sonhos que tenho com os olhos ainda abertos,
São os que mais me assuntam,
Assim como os pesadelos que mais me assombram são aqueles que me visitam nas madrugadas de insônia,
Os olhos que nunca vi,
São os olhos que melhor me enxergam,
Os pensamentos que ainda não pensei
São os meus pensamentos mais desejados,
Aquilo que ainda não sei
É tudo o que poderei saber um dia.
O que eu ainda não sou,
É tão real quanto o que eu já sou.
O que eu ainda não pensei é tão sincero,
Quanto o que já estou pensando.
Os versos que ainda não escrevi,
São tão meus quanto os que acabo de escrever,
Pois o que eu ainda serei ,na verdade eu já sou.,
Assim como o que fui,ainda sou eu.
Pois nos tornamos ,exatamente,aquilo que na verdade sempre fomos.
Mas a nossa razão imatura e os nossos pequenos e doentes olhos,não são capazes de enxergar ou entender.
Pois são muito raros aqueles
Que são capazes de enxergar além dos próprios olhos,
São muito raros aqueles ,que são capazes
De pensar muito além dos próprios pensamentos,
São muito raros aqueles capazes de tocar o infinito,com a ponta dos dedos
Sem se deixar engolir por ele.
São muito raros aqueles capazes de tocar a si mesmo com a ponta dos dedos
Sem sujar-se.