quinta-feira, 27 de setembro de 2012

me resta deixar que os meus cabelos cresçam,

enquanto espero que o relógio atrase.

nem atrasa...

o tédio têm comido
muito 
dos meus 
sucrilhos também....

e ele  há de me gastar os dias, e esgotar boa parte do meu querer,

tenho me escorrido a toa pelo tempo,
esperando por qualquer coisa que nunca chega...

dando voltas e voltas
dentro e fora de mim,
páro 
exatamente
no mesmo lugar,

bem sei,
que nada disso faz a menor diferença pra você.

na verdade nem pra mim...

toda a minha poesia é excesso de pretensão e reticencias,

excesso de mim talvez...

o que me falta no peito,
me sobra nas folhas por amassar,

me resta somar angustias
e dividir 
o vazio do prato, 
com o nada, que me há de vir...

e o  tempo
que nem passa,

há de comer muito mais,
que só
os meus sucrilhos...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

samsara


samsara: as vicissitudes do mundo, da existência humana, a instabilidade e a efemeridade das coisas; a agitação do mundo; a vaidade e a inquietude da vida humana.

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sinto falta dos meus cabelos cumpridos,
e dos dias que se passavam tranquilos em mim.

sinto falta de muita coisa em mim. e de nada ao mesmo tempo.

todas as pequenas coisas que você faz para sentir-se
minimamente vivo,
são vulgares e idiotas demais pra valerem uma linha ou duas no teu diário.

nada realmente importa tanto assim...

é uma pequena-grande angústia, a lhe corroer  os ossos, 
pouco a pouco,
te espatifando toda pelo juízo, repetida e inutilmente...

uma velha com câncer dormia serenamente no leito,
hora ou outra sorria,  e resmungava um palavrão...

seus cigarros a estão matando.

não, a vida que tragou, é que está a  matar.

todo o resto é desculpa, 
propaganda vazia de vida saudável...

enquanto isso, outra velha,
vomita restos de angustias e  sopa em um saco plástico.

no fundo isso tudo é banal também...

o que tenho eu vomitado toda a minha vida?

traguei o que dela?

certamente, ela terá tragado muito mais de mim...

e certamente o tempo também me vomitará;
inteira  
a vida, em um saco plástico algum dia ...

e isso será só um tanto desconfortável, 
eu sei..
mas não tanto quanto é  desconfortável, se saber efêmero e sozinho dentro de si.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

sou muitas coisas,
ao passo,
que não sou, muitas outras coisas.

o que há de muito raso 
ou profundo 
em mim,

os versos tão íntimos, e tão banais.

me relevam e escondem,
os dedos e a  fronte.

de mim, pouco ou  nada sei.

e tudo sou,
tudo sei

ou julgo adivinhar, quando apenas posso sentir-me, 
rasamente dentro do que se sente  em  mim.

sou eu,  na doçura ou amargura 
da  boca, 
versos  e beijos,

sorvendo os dias, vou caminhando, 
dentro e fora das minhas pegadas,

o que nos mata não é a nicotina,
não é bala, não é o frio, ou a fome,

é o tempo.

e somente o tempo.

o que nos oprime não é o emprego 
gasto 
feito sola e sapato,
ditadura, Estado,
rigidez 
e Rei,

é o tempo,
e somente o tempo.

o que nos fere,
não é angustia do amor passado,
não é a inconstância do amante perdido,

o que nos fere,
é o tempo.

e somente o tempo.

queria rasgar-me os cadernos,
queimar-me as horas,

ao tempo,
que nada disso,
tem mais sua importância,

linhas e linhas,
dias e dias...

o que há de mim,
em tudo que se reflete dentro ou fora do espelho,

nada que me reflita a frente,
e as espinhas que tive,
ou as rugas que ainda terei,

terei?

de certo que sim...

mas nada é tão certo e errado,
quanto um tempo,
que me passa,

passa?

de certo que passo,
ao passo,
que não vou.

fico,
e finco, 
meus pés no que há de vir,
e em mim,

no que fui,
e no que nunca serei,

serei?

coisa alguma,
ou todas as coisas...

não me sinto eu,

me sinto um rio,
que passa,
e passo,
na ideia do que fiz de mim,

existo no que sou,
mas também existo no que deixei de ser...

rio que passa,
passo,
e me afundo
findo,
e começo,

nas águas mortas,
ainda por nascer,

existo e fim,

não, existo em começo, meio
e em mim.

sou muitas coisas,
ao passo,
que não sou, muitas outras coisas.

me enxergo em tudo que não me reflete,

existo e  inexisto em muitas de minhas fotografias 
tiradas no presente,
que há muito, que me é passado.

ah,
o que me é passado,
presente,
vida
futuro
e morte?

é tudo farinha do mesmo saco,
de matéria do mesmo infinito 
morto ou vivo em nós...

o que reside no meu peito?

o que reside no meu pranto?

o que reside no meu espirito?

o que reside...

o que me resiste,

sou eu,
apenas eu.

seja lá o que for  isso,
que conheço como eu...

sou eu,
sem ponto ou fim.

eu,
errada ou certa assim,
viva ou morta,
presente ou ausente em mim,

eu...

misturada  a solidez do asfalto,
a fluidez da rima,
a poesia,
e a vida.

não sou muita coisa,
ao passo,
que sou, muitas outras coisas... em mim.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

mudo...

assim como mudam meus botões e as camisas,
meu cabelo 
que cresce,
e minha angustia que hora nasce 
e me amanche,
hora serena, cala e 
anoitece,

muda o tempo,
congela
e queima no peito...

e as horas vão apenas passando, 
uma a uma,
ternas e  vazias, caóticas e 
serenas,

é sábado.

a  televisão me enjoa profundamente, e pessoas me cansam ainda mais.

mas a vida se faz cada vez mais urgente,
e eu me sinto tão mais rala...

me escorre pelos dedos,
verso em verso,
minuto por minuto,

dez horas e cinco minutos, a menos ou a  mais?

tanto faz...

não ei de conta-los.

mudam meus botões e camisas...

e o que mais importaria?

mudo.