quarta-feira, 17 de julho de 2013

o que tenho de mim,
se não eu mesma?

e todos esses pontos,
exclamados,
me interrogando nos miolos..

poesia burra e rala,
que me escorre pelos dedos, garganta e peito...

a calçada lá fora já não é mesma,
os atendentes da padaria, a fachada da casa da esquina, 
e até os caixas do supermercado, já não são os mesmos...

os postes e suas lâmpadas incandescentes,
ligadas durante o dia,
os ônibus que passam pela rua,

sequer os cães que me rasgam o lixo no quintal, são mais os mesmo...

o que tenho de mim,
se não eu mesma?

a comida congelada na geladeira,
o trinco enferrujado da porta,
os livros e a poeira da mesa,

a janela que dá para o muro...

fragmento sobre fragmento,

do nada, que me é tudo em mim.

o que temos pra possuir fora das paredes de nós?

o tempo que se esvai...

o agora,
sempre e sempre,

só agora.

a calçada lá fora...

o que tenho de mim,
se não eu mesma?

o concreto e o agora,
sempre e sempre,

e só agora.

todo resto é transitório.

e até os caixas do supermercado já não são os mesmos.

mas eu tô com preguiça  demais, pra  fingir que me importo...

terça-feira, 16 de julho de 2013

estou a olhar para o teto,
ou o teto está a olhar para mim?

não ei de sabe-lo...

certo é, que estou a fitar qualquer coisa
que há acima da cabeça.

acima...

quem iria notar se nos virassem  o mundo 

ao avesso do avesso?

tudo é abismo,

tudo é chão,

dos olhos 
aos
pés,

nossa cabeça,
braços, 
sexos e narizes.

tudo é abismo.

o quão só nós somos?

o quanto só, nós estamos?

de que importa a largura de qualquer solidão?

tão menor ou tão maior do que qualquer coisa, 
que não nos cabe no peito.

quem iria notar se nos virassem 
o teto do mundo ao avesso?

estou a olhar o teto,
ou o teto está a olhar para mim...

tudo é...

teto 

eu.

tudo é...

o que somos.

quem sabe, o céu...

fecho os olhos,
e sonho com um teto azul tranquilo,

... como tinta que nunca descasca. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

já que estamos velhos demais para aprender a dançar,
dancemos.

não me importo em saber,
ainda menos,
que coisa nenhuma de mim.

vamos apenas abrir as janelas
deixar que entre a luz pela casa,

não se aprende vida fora do salão de dança,

pise nos meus pés se quiser...

rodopiaremos,
e só
rodopiaremos,

solidão é só uma melodia descompassada.

amor,
medo,
e tudo o que há de ser, também há girar fora do ritmo...

giremos.

a vida é só um descompasso.

o que nos restará fora dos salões,
além da cerveja quente,
e das bitucas de cigarros jogadas, apagando-nos pelo chão?...

vamos abrir as janelas
deixar que entre a luz pela casa,

a vida é só um descompasso,
a girar-te o peito...

já que estamos velhos demais para aprender a dançar,

dancemos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Ventana

O pedaço requentado de pizza,
o sábado por esperar...

A vida que me sopra  lá fora,
aqui dentro só esfria.

Sou feita de água,
sangue,
destempero,
reticencia,  interrogações,

E qualquer outra coisa, que na verdade  não convém muito bem.

Em algum ponto de mim,
me esqueceram as janelas abertas.

Me fugiu ou entrou, alma demais.

Não ei de saber.

Meu peito é qualquer coisa,
assim,
como um café amargo demais para apreciar. Quente ou frio.

Me dou o direito de entristecer e ser qualquer coisa em mim.

E talvez até me convenha,
abrir-me em meia dúzia de dentes amarelos.

Mas também não ei de saber.

Em algum ponto de mim,
me esqueceram as janelas abertas...

Em algum ponto,
decidi por não fechá-las mais.

Me fugiu ou entrou demais a alma em mim, afinal.