sábado, 17 de outubro de 2015

caos calmo

17 de outubro de 2015

o descascado da tinta no teto do meu quarto

conversa comigo,
no silêncio da tinta a  me descascar uma coisa qualquer...

a poeira nos livros,

os poemas esquecidos no caderno,
as fotos
e as canecas de café também conversam comigo,

e eles também sou eu,
ao passo que nada mais é meu.


o tédio e o sono a vigiar-me a beira da cama,

me entrelaçam os braços e as horas,

na poesia crua,

vírgulas
e acentos mal colocados,

o excesso 

e o 
esvaziar de mim. 

me mistura o corpo

e as vogais,

escrever tem sido um cavar no vazio.


e pouco importa o que se preenche. 


eu olho paro descascado do teto,

e abro um sorriso 
igualmente 
descascado, é claro. 

viver é mais que o teto, e é só mais uma coisa, ele me diz..

só mais uma coisa...

e que coisa.

domingo, 11 de outubro de 2015

o abotoar 
e o desabotoar 
dos botões na camisa.

tocar o tecido e o metal com as pontas dos dedos...

por deus,
o que mais há pra sentir,
além disso?

fora ou dentro dos domingos,
e em mim.

penso nisso olhando a janela aberta a minha frente,

e pensar nisso é como um  pensar em nada,
tendo os olhos doentes 
pelo excesso ou pela falta de sanidade.

sanidade... 

é só outra palavra a querer dizer-me nada 
e pesar-me tudo.

assim como são todas as palavras.

queria eu aprender e esquecer todas as palavras  
de todos os idiomas.

escrever e apagar todos os versos,
de todos os poetas,

dizer tudo no silencio mais completo e absoluto 
do não ter nada o que dizer.

mas não... me teimam as palavras e os ruídos

o vento a me entrar pela janelas
e as cortinas que seguem brancas e quietas,
balançando contra o tempo 

que me percorre
da planta dos pés,
até a nuca e os fios de cabelo...

se acreditasse em deus talvez perguntasse a ele 
o motivo de tantas cortinas.

as cortinas são também deus,
e são eu também.

mas penso que deus entende de cortinas
tanto quanto eu entendo dele...

benditas seguem as cortinas que não pensam em deus,
poesia ou qualquer coisa...

apenas balançam no mais perfeito nada.

no mais perfeito nada de toda a criação.

bobagem...

é domingo e tenho sono. e é isso. 

deito o verso no corpo
e acordo.

escrever não é nada além desse sono acordado dos olhos.

benditos sejam os que dormem... 

sábado, 10 de outubro de 2015

as vezes eu penso que a vida é um grande nada,
a me preencher de vários espaços em branco,
que vou tateando lentamente com a ponta dos dedos.

tateando, mas nunca tocando. 

se fosse outra que não eu,
o que teria pra ser?

me falta um mundo pra aprender a tocar...

e isso é um saco. sem mais. 



sábado, 3 de outubro de 2015

setembro

eu gosto do amassado das folhas,
do chiado da TV,
da chuva escorrendo pelo vidro,
do barulho dos carros,
e do silêncio que sobra depois da música..

eu gosto da minha tristeza,

quando minha. 
me escancarar o peito e me deixa povoar.

eu cortei e escureci um pouco os cabelos,

quebrei e troquei os óculos...

e não há muito mais que contar. embora sempre tenha. 


tudo tem sido tempo a me somar ou subtrair

nessa coisa qualquer que tenho feito de mim,

muito ou nada de mim,

a refletir no espelho do que julgo ser,

e não há coisa alguma que eu julgue ser,

se não tudo.

eu gosto da janela entreaberta,

do movimento das cortinas,
dos livros na estante,
dos olhos castanhos... 

não tem poesia que me dê conta
da vida,
ou dos teus olhos castanhos...

ainda me cabe aprender a sentir. 

que me atropele logo um caminhão,

de frente
e bem forte no peito.