quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A toalha de mesa estampada,
as cadeiras da cozinha,
a água que ferve para o café,
tranquila
no fogão, como se nada fosse,
nada precisasse
existir
além desse ferver e
café.

E tão pouco ainda preciso...

Talvez,
muito mais que tudo.
Ferver,
peito,
feito água quente,
E café...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Deveria, eu, ter sido jardineira na vida,
só pra cultivar os silêncios
e o tempo
nas flores que
murcham
e botões que florescem.
Não tem poesia,
psicologia
ou filosofia
que me caibam as flores do quintal.
vida que me ultrapassa as linhas e os livros...
floresce e apenas floresce,
silenciosa
e
espinhosa
no jardim de mim...
benditas sejam as flores
que continuam flores,
mesmo depois de murchas.
quem dera ser jardim

sábado, 14 de novembro de 2015

eu deixaria toda água correr 
do chuveiro
até a minha pele 
em branco e 
pálida...

a pequenez da fronte,

o asfalto bruto, na planta dos pés,
o delicado dos botões e vestidos

como que  e

                   s
                  c
                    o r
                          r e
                          n
                              d o,  pelo ralo de mim,

há um descompasso ruidoso

a me abrir e trancar
em portas
e janelas 
o peito
e o cair da tarde,

o teu hálito quente,

meus olhos assutados,

tudo o que me 

lembro/ 
esqueço, 

me embaçando 
os vidros 

e espelhos... 

nada além da água 
que me molha as costas e os cabelos de tédio...

seco a água de mim,


corpo nu,


a esperar
o macio 
da toalha, 

em 

branca
pálida... 

a me secar, 

toda a aspereza do amor.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

corpo

gostava de ter teus olhos 
como a dois espelhos
a me refletir 
a fronte e as costas,

o tempo do calor do peito

a sobrepujar-me 
o tempo 
dos ponteiros e calendários,

gostava de ter os dedos,

a misturar 
o pó de café a água,

o aroma adocicado 

de melancolia 
a tocar-me o delicado dos lábios...

depois teu colo como ninho
asa e voo,

pousar abismo
em verso
letra
e
língua

ter as pernas como um navio,
a navegar-me 
os lençóis,

afogar-me 
o tédio e o medo  
no teu-e-meu suor,

gostava de ter o nu do corpo,
como folha branca,
pra te escrever com os lábios o beijo,

instante 
por 
instante. 

prender com as coxas 
o teu acaso, 
poesia 
em gozo morno;
eternidade.

verso a verso,

corpo 
a
corpo.

sonhava teus pelos misturados a minha poesia...

domingo, 1 de novembro de 2015

Bateu-me a porta e eu abri, entrou vagaroso e sorridente, o acaso. 
Deixei sentar no meu sofá, me contar as histórias e refletir-me no seu rosto o meu próprio rosto. 
O acaso tem rosto e olhos de menino. Meninos desses que te puxam e fogem, sem saber que te puxam e fogem, porque meninos desconfiam de tudo, mas não sabem de nada. (Assim como as meninas também)
E aqui estamos o acaso, a chuva, a noite e eu, sentados todos no sofá da sala do que sou, encontrados onde me perdi. 
O acaso conta uma piada boba sobre deus e eu lhe conto uma história boba sobre amor e tudo fica assim: bobo. 
O acaso é um menino bobo a me contar piadas. E eu o que sou se não apenas uma menina boba também?
E a vida é uma bobagem muito séria que me foge dos versos, me abre as portas e me invade sem licença. E pra que licença? 
Senta, e dorme aqui no meu colo, sonhando em ser pouco mais que a piada boba de um menino...