sábado, 26 de março de 2016

os livros espalhados pelos cantos da sala,
cortina aberta,
folhas amassadas
a letra miúda,
e as xícaras de café 
esquecidas na mesa,
o silencio que canta,
pelas bordas da casa,
o gato que dorme
nos meus pés...
tudo é verso a me espalhar,
do teto
ao
chão,
nada sobra que não seja poema.

sexta-feira, 25 de março de 2016

me falta um rosto pra reconhecer no espelho...

o que eu tenho já não me cabe mais a face pálida e magra,
de tão pouco ou nada, que tenho a  expressar.

me deixo pelo descaminho do tempo,
e tempo,
e tempo, e tempo... temo.

não me vejo nas  horas.

sem folha,
caneta ou verso...

o melhor poema que escrevi essa semana,
e talvez, em qualquer outra semana,

seja mesmo a folha em branco que deixei por rabiscar...

pois sim.

cento e nove rascunhos,
amassados pelo peito,  
que me ficam ao verme do meu tédio.

nada mais.

me falta um verso,
pra me reconhecer nas linhas...

me ficam ao verme.


e tudo mais.

quinta-feira, 24 de março de 2016

espectro de newton

Eu me sinto toda ocupada,
por vários pedacinhos em branco,

a visita ao hospital psiquiátrico,
as noticias dos meninos presos da escola,

a ausência dos versos,
as leituras de terça,
quarta,
quinta... sexta.

o barulho dos carros,
as luzes dos postes,

madrugada e despertador. tudo colorido em branco.

eu coloquei um fado português pra tocar,
vesti a minha calça mais velha,
e deitei - deitamos,
verso e angústia na cama de mim.
tudo a querer colorir-me o branco.

tudo explodido

em branco vivo.

espectro de newton gozado na minha cara... 

domingo, 20 de março de 2016

Eu me sinto nascendo dentro do corpo. 
E todo nascer é um morrer, em alguma medida. 
Qual medida? 
Não sei das medidas de nada...
Todo o meu saber começa e se encerra 
no fechar e abrir 
das minhas cortinas. 
Toda a minha poesia é uma cortina branca
Ora abre, ora fecha...
Mas não sabe que abre, nem que fecha. 
Nada, se não, cortina de algodão e vento.
Ora sabe, ora nada... 
Venta. 
Eu me sinto nascendo cortina dentro do peito. 
Vento.

sábado, 19 de março de 2016

março

As sextas-feiras continuam aí,
me lembrando
o quanto a vida pode ser
espessa e fina.
E eu me sento, calmante,
entre
uma ponta e outra
nem tão fina ou espessa,
No meio,
bem no meio, de mim.
tanto faz...
Acordei às 5:10,
peguei o ônibus das 5:40,
lotado é claro,
Tudo anda lotado.
Entrei no trabalho às 14 e pouco...
O corredor da escola,
lotado,
é claro.
Cheguei em casa... Sei lá que horas,
o quarto,
os livros,
roupas e eu
lotados.
Nem sei mais o que é uma coisa ou outra...
Parece que a vida explodiu, a duas quadras daqui,
o cara da moto atirou no outro cara,
o menino saiu chorando da escola e não foi pra casa,
o ônibus quebrou e a velha xingou...
Nem sei mais o que é uma coisa e outra...
Se calhar, nem é nada mesmo.
[Pausa pra um grito mudo aqui]
Faço um café,
abro as janelas,
as cortinas,
a porta...
Nem tão espessa, nem tão fina...
Respiro.
Toda ar é presente.
Respiro.