sábado, 23 de julho de 2016

em porcelana

tinha os olhos de esquecer.
as mãos em dois silêncios magros,
e o peito 
em um permanente assobio. 

o tempo frio,

as xícaras,
a louça toda por lavar
o fim das férias
e o começo de qualquer outro fim...

a água molhando minhas mãos enquanto ensaio ensaboar

pouco a pouco 
os pratos,

o relógio na parede

calendário,
o chiado  da televisão a abafar-me 
o assobio seco do peito...

o tédio por ensaboar e secar-me.


amor e poema,

a me encharcar e afogar,

(e esquecer)

ou qualquer outra coisa 

entre lavar os pratos 
e morrer...

porque é sempre só qualquer outra coisa 
entre lavar os pratos e morrer.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

me sinto velha e chata,
um tanto mais chata que velha,
mas a essa altura tanto faz...

mas puxa a cadeira
e toma um café comigo,
café preto,
desses de padaria mesmo.

não tenho muito o que dizer,
eu nunca tenho...

a verdade é que ando triste pra caramba.
e não tem lirismo nenhum que me salve disso,

e tem lirismo pra caramba nesse café de padaria,
que fica com gostinho de pó bem no final,

tem lirismo pra caramba,
no balcão,
nos azulejos do chão,
na sujeira
e nos centavos que o cara tá contando na fila do caixa...

pago a conta e me desamasso
o verso
do guardanapo,
e do peito

entre o doce do café
e o amargo do tédio,
a me amarelar os dentes e os poemas...


é sempre o mesmo lirismo 
amarelo
de café e das etceteras todas...

sempre.

que seja. 

sábado, 16 de julho de 2016

A poesia corre feito um rio
serena, 
transborda e afoga,
o verso e o peito.