domingo, 25 de dezembro de 2016

I

faz algum tempo que eu não escrevo,
e até aqui tudo continua sendo o mesmo tédio,

sinto desapontar,
mas não tenho nada novo a escrever
ou sentir.

é a mesma janela
e sol quente...

e  até a poeria dos livros
segue a mesma.
inalterada
e banal,

os mesmo versos de sempre,
na minha letra miúda e feia.

iguais.
enjoativamente iguais.

o que poderia ter eu, de novo a acrescentar ,
no curso dessa vida que já não fosse velho e gasto,
tal qual esse  mundo caduco? 

eu tô a beira dos 26 anos,
e honestamente  isso também não muda muita coisa.

a vida segue não fazendo o menor sentido,
e eu viro de lado,
me ajeito nos lençóis finos,
e finjo que me importo.

mas a verdade é que ainda tanto faz...

até aqui,
a falta de sentido
segue sendo a única coisa coerente que eu tenho para escrever. 

e a mais bonita também. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eu queria me concentrar na leitura do Otelo,
nas provas,
na gata que dorme no tapete...

Qualquer coisa que me fosse menos insipida e morna que essa hora. 

Mas nada  me cabe que não seja espera e saudade.

Eu tenho espiado a vida pela fresta da janela, 
e toda a luz que entra,
me enche os olhos e a sala,

me escapa dos dedos
esparrama inteira a alma
entre as bordas
do teto 
ao chão.

Viver tem sido um exercício de empilhar
os silêncios
pelos cantos de mim,

etiquetar os fracassos
e guardar os recibos das neuroses
na gaveta do criado mudo. 

Eu mesma, se pudesse,
me dobraria toda
entre as meias e as camisetas da gaveta,
até as traças corroerem todo tecido de tempo. 

Meu bem, faz meses que não escrevo
nada que não seja tédio 
e porcaria acadêmica. 

Tem qualquer coisa que faz toda essa inutilidade 
parecer bem reluzente, mas só parecer...

Honestamente?
É um saco. E, é só isso. 

A falta que me faz 
o castanho dos teus olhos,
as pausas e o calor na sua voz... Tem muito mais contorno e claridade. 

Tudo que é seu, e ainda me transborda...

E também é um saco. Só podia ser um saco.