sexta-feira, 22 de setembro de 2017

melancolia que me acompanha
dia sim
dia também...

senta no lado esquerdo do sofá

bebe o café,
e come sem vontade o pão,

desliga a luz

e abre as cortinas,

tropeça sem graça na calçada,

amarrota o vestido,
e me enjoa o estômago...

trepa com o tédio

vira de lado
e não dorme.

me acorda às cinco e pouco

pega o ônibus
e senta na carteira da frente...

escreve,

apaga
e esquece.

o mesmo/outro poema sem graça,

dia sim
dia também...

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

do ilusório

todas as coisas parecem tão inúteis
quanto sempre foram,
o lado esquerdo da cama,
vazio,
os poemas não terminados,
a porta esquecida aberta...

pedaços e pedaços
de uma poesia gasta e repetitiva

cotidiano raso
e esquecível.

eu me sinto inacabada,
tateando as bordas de mim
pelo escuro.

e já é setembro...

me deixo no lado esquerdo da cama,
espero outubro,
e finjo dormir.

tudo é pouco mais que
sonho.

domingo, 9 de julho de 2017

Inacabado I

eu gostaria de me importar com os acentos,
e evitar as pausas
e as vírgulas excessivas. 

Mas pouco me resta o tempo
ou espaço,
Pra me desocupar do oco,
do qual me fiz.

Nunca me senti tão
incompleta,
E, tão satis(feita)
De mim mesma.

Como se me costurasse
pele nova
sobre a pele gasta. 

sexta-feira, 31 de março de 2017

fome

a fome é devastadora. 

o tempo te devora, 

a angústia,
o tédio, o trabalho
o cheio e o oco

te devoram, 

o medo te devora, 
o amigo,
o cunhando
a chuva, o tempo quente,
o lento 
e o nunca mais

te devoram.

teus olhos no espelho,
seus discos,  o calendário,
os ponteiros do relógio,
a fresta da janela,
a calçada,
a caneta
o livro

o urgente e o depois...

sua casa, seu marido, esposa, filho, 

o gerente e o ninguém. 
te devoram...

a comida, a bebida, os cigarros,

o sexo e até o amor, 

te de-vo-ram.

a vida...


te devora
e te cospe.

devora e devora...

você, te devora.


a fome é devastadora, e te devora.


saboreá-te.

domingo, 29 de janeiro de 2017

faz tempo que não escrevo poesia,
e todas as palavras tem sido vagas
e vazias de tudo, inclusive de mim.

esbarrando no tímido dos meus olhos,
na voz baixa,
e na minha constante falta de jeito 
pra tudo o que há fora de mim. 

e eu não quero figurar em um desses anúncios de "desparecida",
mas sinto que a muito que se perdeu 
o que tinha de meu nesses cadernos,

e o que me sobra é o ecoar miúdo dos versos
que mal me cantam mais
o insosso da tarde 
ao pé do ouvido. 

só o que resta é o silencio dos copos,
o vidro embaçado do espelho no banheiro,
o cheiro de pneu queimado do ônibus,
a escola cheia,
e  o costumeiro tédio de tudo
que me corre em cada centímetro do corpo.

tudo o que me é concreto e parco. 
e, por isso mesmo, sublime de tão ordinário.

viver segue sendo a maior das transgressões...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

abro os olhos, que já amanheceu,
não há muito o que fazer..

talvez seja assim mesmo,
algumas manhãs são claras,
e outras, apenas não são.

eu queria aprender a cozinhar,
para quem sabe me fazer um almoço ou um jantar bem legal... 
arroz, filé , salada... talvez algo mais... não sei por que falei disso agora.

vou escovar os dentes, e abrir as janelas...

saltar
e
cair

pra não morrer. 
são dias difíceis de escrever,
ver,
ou sentir...

o nada,
que me esvazia,
o corpo,
a mente e a alma...

me preencho no peito,
e a folha
de coisa nenhuma.

afundo minha cabeça no travesseiro.

afundo meus olhos no vazio do quarto,
e da vida.

há um intervalo na minha consciência,
um bloqueio,
feito,
buraco e vazio,
na vida e no peito.