domingo, 14 de junho de 2015

em dezenove linhas

o que me dói é o raso
entre o meio
e o canto esquerdo do peito.

nas mãos ocas de mim,
nos lábios trêmulos de silêncios.

o que me corta é o tempo.

me atravessa o espelho,
os olhos, e os ponteiros.

movo os dedos devagar,
tecla depois de tecla,

desembaço as lentes dos óculos,
tem ainda o astigmatismo...

o que me sobra é o tédio.

me invade o quarto,
o amassado da folha, o desbotar da tarde... e já é tarde. deus, como é tarde.

até pro que ainda é cedo, já é tarde!

bobagem... 

ainda me encanto do verso.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

tem uns meses que não bebo café,
e não fumo,
o que não é bom nem ruim, apenas é.

tem uns meses que esqueço a janela do quarto aberta, 
e durmo,

deixado as cartas no portão,
grifado a lápis o mais desimportante  dos rodapés dos textos de psicanalise,
e torcido para professora de terça faltar...

escrito e apagado,
adiantado o relógio e perdido a hora... 

meu peito é o 
oco 
preenchido de mim.

no reflexo do espelho,
nas lentes sujas do óculos,
na casa,
na rua,
livros e janela, não me encontro em mim,

tem um gosto amargo,
que me desce 
rasgando
pela garganta,

dia sim
dia não...

só tem me sobrado 
a falta de mim...

verso sim,
verso não.

abro a janela,
para me esquecer de 
fechar-me o peito. 

tens uns meses... e nada. 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

fragmentos

Meu coração é casa de silêncios,
verso
e tempo.
Vento ameno a arrebentar
janela e tempestade.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

medianeras

fecho as janelas e visto o casaco...

acordei sem saber se era ontem,
hoje,
ou anteontem.

é  só um desses desiquilíbrios modernos...

eu tenho medo de alturas,
escadas rolantes,
amor e
elevadores.

e isso também não é nada anormal.

passei dois pontos depois do que eu deveria descer,
tá frio pra caramba,
e eu gosto um pouco menos da minha cara nas sextas de manhã... (hoje é sexta)

acordei sem saber se era eu
ele
ou ninguém...

entendo de mim tanto quanto uma minhoca  deve entender do mar...

há um abismo imenso 
entre existir 

poesia.

salta. 

todo o resto há de ser tão irreal quanto tudo. 

ainda tá frio pra caramba, 
abro a janela 
e tiro o cachecol...

meu coração é  pouco menos ou pouco mais 
que verso, abismo e janelas. 

salto. 

domingo, 3 de maio de 2015

me passam iguais,
tempo e domingo,

e esse nada

a me arder no peito...

amanhã é segunda, 

e eu sinto os joelhos  
tremerem de frio
por dentro da meia-calça...

bebo água,
ligo e 
desligo a TV,
abro as janelas,
arrumo as cobertas,

deitamos corpo e tédio na cama do que sou... não sou.

me tremem os joelhos de frio,
e o peito... de frio me arde como se nada fosse. e nada é. 

eu sumiria no próximo navio
se já não houvesse ele  partido de mim.

poesia é tempestade a me navegar,
e naufragar,
serena,
como se nada fosse. e nada é. 

navego, afago e afogo 
verso  
náufrago de mim. sou.

domingo, 26 de abril de 2015

tiro o esmalte das unhas,
com o descaso 
e a impaciência costumeira,

por deus,

o que ainda sobra por sentir, além disso?

o domingo e o tédio,

véspera de segunda e coisa nenhuma...

corto as bordas do pão de forma,

como quem espera cortar as bordas de si...

respiro fundo e solto o ar de mim,


prendo o que ainda me resta de sanidade e engulo o café com leite.


há puco ou nada que se dizer,

além disso.

monossilaba por monossilaba 

de um poema que eu nunca me termina.

todo o resto é infinitamente menor.


tô sem saco para os trabalhos de faculdade,

livros,
anotações
e notas de rodapé,

vizinhos,

cachorro latindo,
horário
ponteiro e relógio.

todo o resto é infinitamente maior.


teve aquele sonho da noite passada,
a chuva pela manhã,
o terminal de ônibus,
a porta abrindo,
o silêncio do quarto
e o gosto de café requentado que me fica na boca...

e ainda tenho esmalte na mão...

por deus, e o que mais agora?

tomo outro gole de leite,
sanidade a engolir
e escarrar.

sábado, 18 de abril de 2015

uma noite dessas ainda me atravesso o peito,
como quem espera saltar de uma ponta a outra de um abismo,

e voo. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Escrever não se trata de domar demônios,
escrever é tirá-los dos armários do peito
e convidá-los para dançar.


sábado, 4 de abril de 2015

caos calmo

04 de abril de 2015

toca o despertador,

que não me despertar o peito,

solidão que me atravessa o vidro da janela,

me atravessa o quarto,

os olhos
e os
dias,

o ponto de ônibus,

os trabalhos da faculdade,
a escola,
televisão,
livros,
rua, poeira
e
poesia.

qual a diferença entre solidão e solitude?


é uma fresta de luz amarela,

sol de fim de tarde,
pouco mais que a luz no fim de um túnel,

tem um incêndio no fim do túnel, 


que me atravessa 

o vidro dos óculos,

silencioso

e sozinho. 

pouco mais que meu coração...

silencioso e sozinho,
incendiando,

sexta-feira, 3 de abril de 2015

tem qualquer coisa muito bonita,
nisso,
de sermos sozinhos assim. 

sábado, 28 de março de 2015

cartas à ninguém

# 28 de março de 2015


fumo um cigarro com os cotovelos apoiados na janela,
me enche os pulmões de tédio e nicotina.
me aspira  tempo
pelas janelas abertas.
gosto das minhas cortinas brancas de manhã…

você não pode morrer de amor,
não, não pode.

mas pode padecer lentamente da falta dele.

e não há nada de extraordinário nisso.

te aperta o peito,
dia sim, dia não…

meus cotovelos continuam prostrados na janela,
e as cortinas seguem brancas e quietas, 
balançando com o vento.


a vida dói como dói,
e isso pouco ou nada importa.
e até aqui  nenhuma novidade a acrescentar… 
bom dia, e até mais.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

incabando

eu tô olhando para uma tela em branco,
que me reflete o nada dos olhos e da vida.

um belo espaço de tempo
entre o antes e o agora,
e um pouco mais de um depois a borrar
e esperar...

esperar e
expelir 
ar
e
ar.

desalinhar
o passo
e o peito,

o verbo
e o  peito.

o tempo e... respirar.

de ar 
em ar. 

tempo é ralo
e espesso,

abrir janelas,
arrumar gavetas

colocar
as neuroses nos lugares.

fica bem assim,

cortinas brancas,
e a cama por fazer.

um pouco menos
entre um e outro agora.

borrar
e existir,

peito que me é ralo
e espesso.

vida cheirando a tinta
e incerteza. 

fico bem assim.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

palavras cruzadas

tenho jogado palavras cruzadas comigo,
ninguém ganha
e ninguém perde... isso é um saco. 

e o meu fone de ouvido está quebrado do lado direito,

mas a verdade, é que às vezes acho,  
que estou ficando um pouco surda, 

para o que me interessa ou não ouvir. 

penso que eu deveria parar de usar óculos,
escrever
ou ler qualquer coisa, e apenas me concentrar nos sinas de trânsito... 

eu tenho uma certeza secreta e tola

que eu morrerei atropelada antes dos quarenta. 

acontece que a vida atropela muito mais que qualquer caminhão.


ah, sim. muito mais.


quem me dera um caminhão de uma vez.


eu tenho ignorando completamente as datas e os horários,


tenho chegado e partido sempre muito antes ou depois do que deveria.


tenho deixado a cama por fazer

os cabelos por escovar,

e a vida por cuidar...


o telefone tá desligado,

mas às vezes eu acho que ele toca...

desconfio que tenha enlouquecido,

um pouco mais
e de vez
nas últimas duas semanas. 

até parece que me bate qualquer coisa no peito...


bobagem,

bebo um copo de leite,
fecho os olhos e imagino 
uma linha horizontal  

outra 
vertical 
em um tabuleiro. 

palavras cruzadas e tudo mais... talvez nem seja tão ruim assim. 


quem me dera dois caminhões!


cruzados, feito amor,
direto no peito...

domingo, 26 de outubro de 2014

sábado, 20 de setembro de 2014

vamos tentar sofrer menos,
por um instante ou dois, por favor...

eu ainda me sinto idiota. é uma condição quase que permanente 
e de algum modo me conforta admiti-la. 

a conclusão até aqui é, por tanto:

não há o que fazer.

soframos menos, então.

sim, sim... bem menos (por um minuto ou dois).

sábado, 16 de agosto de 2014

navegante


         sábado, 26 de janeiro de 2013

eu continuo aqui, a deriva de mim.

o barco do que sou, navega

pelo mar de mim,
e só de mim.

todos os outro  já deixaram o porto,

todos os outros já naufragaram mar a fundo,

todos os outros já navegaram

e afogaram mar e vida.

todos os outros...


eu não.


permaneço aqui a deriva de mim,

e só de mim.

o barco do que fui

me navega,
e afoga.

todos os outros já se foram...


todos os outros já navegaram  tempestade,

todos os outros foram navios piratas, cruzando oceanos.

todos os outro  já deixaram o porto,
todos os outros já naufragaram.

todos os outros já se foram...


todos os outros, não sou eu.

o barco do que sou 

me navega
e apenas navega.

o barco do que sou ...


também já se vai.

domingo, 15 de junho de 2014

caos calmo

15 de junho de 2014

(sobre ter parado de escrever)

nos últimos tempos tenho me sentindo desleixada e improdutiva,

não que ser produtiva, ou qualquer coisa assim,

me interesse muito. não interessa.

o meu cabelo cresceu,

os óculos já não são os mesmos,
as calças,
camisa
jaqueta,
quarto e telefone...

parede,

rua,
caderno

e poemas...  nada me é estático.


não há nada mais banal do que ir ao banheiro a noite,

dar descarga
voltar para cama,

tomar café


ligar e desligar o computador,


escrever


e dormir...


o que temos fora de toda essa banalidade?


nada a que se agarrar ou soltar.


uma vida que tem se resumido a deixar poemas por terminar,

cinzeiros
leite
café
George Mead (fui muito bem nas provas, obrigada)
e programas ruins de domingo...

uma vida que se resume a qualquer coisa 

que no fundo não me interessa.

parede,

rua,
caderno

e poemas..


nada a que se agarrar ou soltar.  saltando em 3,2, 1... 


tomar café


ligar e desligar o computador,


escrever


e dormir... 


o que temos fora de toda essa banalidade? 


sei lá...


tomo café com leite

e escrevo isto,

com  uma esperança boba  de que faça sol pela manhã 

e chova um pouco a tarde. 

mais que isso é bobagem. 


entende o que quero dizer?

quinta-feira, 13 de março de 2014

azulejos azuis

os azulejos no banheiro,
as cortinas brancas da sala,
o barulho de construção, nos fundos da casa,

e o silêncio, de qualquer coisa, a se quebrar
verso depois
de verso...

escrever sempre foi um soco
na minha própria  cara. de outro modo não teria porquê escrever.

espero que não me entenda mal
mas também não espero que me entenda tão bem assim.

entender é sempre um tanto limitado.

e eu escreveria um livro inteiro
só com as coisas que me fogem da percepção.

isso, se escrever fosse realmente algo relevante pra mim... mas não é.

eu lembro do mar,
da janela do ônibus,

meia duzia de sorrisos,
e outras tantas coisas mais... 

eu não me lembro de mim. 

as tardes vazias,
a biblioteca,
a tela,
e o branco,

o  tédio,
o sono
e o sonho.

eu só me lembro de mim.

tem uma casinha branca,
com azulejos azuis,
prateleiras 
e silêncios, esquecida em algum canto de mim.

tudo o que eu deveria escrever.

muito além do soco 
ou
da cara amassada.

eu espero que passe bem.

eu sei que eu, passo.

azulejos azuis...

domingo, 26 de janeiro de 2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

todavia

mudam as primaveras,
invernos
e os botões.

nada nos é estático,

previsível
ou
durável.

poderia ficar confortavelmente deprimida,

girando
ao redor do meu próprio eixo.

poderia. se isso não me parecesse tão patético,


e provavelmente é.


podeira uma porção de coisas,

mas todas elas
são, fracamente, tolas.

o quarto me abafa o grito

e o respirar,

me entra mais tempo

do que vento
janela
a
dentro,

e os anos

que me vão passando
são
irritantemente confortáveis de mais...

me contorço em qualquer cólica,
ou mau humor,
nada que realmente importe escrever,

e o que importaria então?

trasbordaria um rio,
daquilo que não fiz,

trasbordaria dois rios
daquilo
que poderíamos ser...

todavia,

nada.