são dez da noite,
de uma sexta,
e eu nem sei direito
se é mesmo setembro ou outubro,
eu tenho um quarto todo lotado de mim por arrumar,
espalhados os livros,
a poeira
e descascado da tinta
o teto e
o chão
tudo lotado de mim,
os pés
as mãos,
a sujeira por debaixo das unhas,
as bolsas nos olhos,
os quilos a mais ou a menos
lotados de mim
a porta da frente,
o atraso e o desconto no fim do mês,
a conta paga
e a esquecida
lotadas de mim.
a displicência e a paranoia,
novas
e antigas
o amanhecido
a fome,
o sono,
o tédio,
o suor,
e desalinho,
lotados de mim.
o verso
e o insustentável do tempo,
o que me arde,
fere e
afaga,
o ignorado
e insosso
me esvaziando os contornos,
de algo que sempre me fica
por arrumar...
de uma vida inteira,
lotada
e esvaziada de mim.