terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eu queria me concentrar na leitura do Otelo,
nas provas,
na gata que dorme no tapete...

Qualquer coisa que me fosse menos insipida e morna que essa hora. 

Mas nada  me cabe que não seja espera e saudade.

Eu tenho espiado a vida pela fresta da janela, 
e toda a luz que entra,
me enche os olhos e a sala,

me escapa dos dedos
esparrama inteira a alma
entre as bordas
do teto 
ao chão.

Viver tem sido um exercício de empilhar
os silêncios
pelos cantos de mim,

etiquetar os fracassos
e guardar os recibos das neuroses
na gaveta do criado mudo. 

Eu mesma, se pudesse,
me dobraria toda
entre as meias e as camisetas da gaveta,
até as traças corroerem todo tecido de tempo. 

Meu bem, faz meses que não escrevo
nada que não seja tédio 
e porcaria acadêmica. 

Tem qualquer coisa que faz toda essa inutilidade 
parecer bem reluzente, mas só parecer...

Honestamente?
É um saco. E, é só isso. 

A falta que me faz 
o castanho dos teus olhos,
as pausas e o calor na sua voz... Tem muito mais contorno e claridade. 

Tudo que é seu, e ainda me transborda...

E também é um saco. Só podia ser um saco.  

2 comentários:

  1. M.
    ( ou como Mirtes, é uma mulher poetiza e maravilhosa)
    Honestamente, amo essas leis que brotam da tua boca.
    Me agradaria beijar teus lábios, porque teus lábios são desses que a gente não esquece mais.

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