terça-feira, 11 de setembro de 2012

sou muitas coisas,
ao passo,
que não sou, muitas outras coisas.

o que há de muito raso 
ou profundo 
em mim,

os versos tão íntimos, e tão banais.

me relevam e escondem,
os dedos e a  fronte.

de mim, pouco ou  nada sei.

e tudo sou,
tudo sei

ou julgo adivinhar, quando apenas posso sentir-me, 
rasamente dentro do que se sente  em  mim.

sou eu,  na doçura ou amargura 
da  boca, 
versos  e beijos,

sorvendo os dias, vou caminhando, 
dentro e fora das minhas pegadas,

o que nos mata não é a nicotina,
não é bala, não é o frio, ou a fome,

é o tempo.

e somente o tempo.

o que nos oprime não é o emprego 
gasto 
feito sola e sapato,
ditadura, Estado,
rigidez 
e Rei,

é o tempo,
e somente o tempo.

o que nos fere,
não é angustia do amor passado,
não é a inconstância do amante perdido,

o que nos fere,
é o tempo.

e somente o tempo.

queria rasgar-me os cadernos,
queimar-me as horas,

ao tempo,
que nada disso,
tem mais sua importância,

linhas e linhas,
dias e dias...

o que há de mim,
em tudo que se reflete dentro ou fora do espelho,

nada que me reflita a frente,
e as espinhas que tive,
ou as rugas que ainda terei,

terei?

de certo que sim...

mas nada é tão certo e errado,
quanto um tempo,
que me passa,

passa?

de certo que passo,
ao passo,
que não vou.

fico,
e finco, 
meus pés no que há de vir,
e em mim,

no que fui,
e no que nunca serei,

serei?

coisa alguma,
ou todas as coisas...

não me sinto eu,

me sinto um rio,
que passa,
e passo,
na ideia do que fiz de mim,

existo no que sou,
mas também existo no que deixei de ser...

rio que passa,
passo,
e me afundo
findo,
e começo,

nas águas mortas,
ainda por nascer,

existo e fim,

não, existo em começo, meio
e em mim.

sou muitas coisas,
ao passo,
que não sou, muitas outras coisas.

me enxergo em tudo que não me reflete,

existo e  inexisto em muitas de minhas fotografias 
tiradas no presente,
que há muito, que me é passado.

ah,
o que me é passado,
presente,
vida
futuro
e morte?

é tudo farinha do mesmo saco,
de matéria do mesmo infinito 
morto ou vivo em nós...

o que reside no meu peito?

o que reside no meu pranto?

o que reside no meu espirito?

o que reside...

o que me resiste,

sou eu,
apenas eu.

seja lá o que for  isso,
que conheço como eu...

sou eu,
sem ponto ou fim.

eu,
errada ou certa assim,
viva ou morta,
presente ou ausente em mim,

eu...

misturada  a solidez do asfalto,
a fluidez da rima,
a poesia,
e a vida.

não sou muita coisa,
ao passo,
que sou, muitas outras coisas... em mim.

5 comentários:

  1. Tempo assassino da inércia.

    Ou não:

    "Rascunhos 1 minuto atrás..."

    ResponderExcluir
  2. Bonito. Principalmente do meio pro fim...

    *--*

    ResponderExcluir
  3. Assim nasceu o que em ti cresceu, como poemas em ti poeta a que poetiza a descoberta da vida questionada por quem deixa a vida à Deus dará ...
    Mirtes, esse poema é o teu melhor primeiro de todos os outros, senti e amei isso dito por tua boca.
    Saudações!

    ResponderExcluir
  4. esqueci de dizer, não usa mais banais .. nada de ti, na tua criação é banal(ponto final)

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir