domingo, 26 de abril de 2015

tiro o esmalte das unhas,
com o descaso 
e a impaciência costumeira,

por deus,

o que ainda sobra por sentir, além disso?

o domingo e o tédio,

véspera de segunda e coisa nenhuma...

corto as bordas do pão de forma,

como quem espera cortar as bordas de si...

respiro fundo e solto o ar de mim,


prendo o que ainda me resta de sanidade e engulo o café com leite.


há puco ou nada que se dizer,

além disso.

monossilaba por monossilaba 

de um poema que eu nunca me termina.

todo o resto é infinitamente menor.


tô sem saco para os trabalhos de faculdade,

livros,
anotações
e notas de rodapé,

vizinhos,

cachorro latindo,
horário
ponteiro e relógio.

todo o resto é infinitamente maior.


teve aquele sonho da noite passada,
a chuva pela manhã,
o terminal de ônibus,
a porta abrindo,
o silêncio do quarto
e o gosto de café requentado que me fica na boca...

e ainda tenho esmalte na mão...

por deus, e o que mais agora?

tomo outro gole de leite,
sanidade a engolir
e escarrar.

Um comentário:

  1. Eu também penso isso: " o que me resta pra sentir na poesia?" aí venho aqui te leio ... e sinto. Penso sempre em redescoberta, o novo que ficou esquecido nos fragmentos.
    Saudações.

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