Nasceu Mathias numa noite calma de Agosto, tinha três irmãs mais velhas que o amaram e protegeram por toda a infância.
Quando seu pai não estava por perto, brincava com as bonecas da irmã Marta, gostava de cuidar dos machucados imaginários dos bichos de pelúcia, dar de comer para o cachorro e ajudar com machucados reais de sua mãe.
Percebeu cedo que a mãe sempre tinha um roxo pelo corpo, pouco falava na presença do marido, chorava baixinho pelos cantos, mas ria alto com um copo de bebida quando ele não estava. Ela parecia triste e distante na maioria dos dias.
Não fosse pelas irmãs, nunca teria conhecido o amor de uma mulher.
Achava seu pai parecido com um galã de cinema, olhos verdes, pele bronzeada, cabelos escuros parecidos com os deles. Se perguntava se um dia iria se tornar um homem bruto e bonito como o pai, embora a imagem que visse no espelho fosse muito mais parecida com a fragilidade silenciosa da mãe.
Aos 15, ainda Mathias, se apaixonou perdidamente por um aluno novo de sua escola. Ele parecia a mistura perfeita entre a beleza dura de seu pai e a docilidade distante de sua mãe.
Ainda não sabia dizer o que era amor, mas sentia algo forte percorrer todo o seu corpo sempre que Isaac pedia um lápis emprestado e o chamava para jogar bola
Decidiu escrever um poema declarando toda sua admiração para o colega.
“Querido Isaac, sempre que te vejo meus olhos se enchem d’água, como pode existir no mundo criatura tão bela? Como posso existir sem que nossas almas possam se tocar?”: Ass: Mathias
Escreveu e amassou o papel logo em seguida. Havia herdado o temperamento impulsivo do pai e o gosto pela poesia da mãe, mas não sabia disso ainda.
Desamassou o papel, riscou seu nome e assinou depois do risco “Doroteia”. Esperou um momento em que ninguém estivesse por perto para colocar o bilhete na mochila do colega.
Não tinha nenhuma Doroteia na classe, mas não importava, lhe parecia o nome de uma poeta, talvez uma autora de folhetim “ esse sentimentalismo é coisa de mulher”, era o que o pai dizia sempre que a mãe pedia para escutar rádio novela.
As horas se passaram e seu coração ardia um pouco mais sempre que Isaac olhava algo em sua mochila. Observava todos os movimentos do garoto. Nenhum sinal de que o bilhete havia sido descoberto, nem um sorriso diferente, ou comentário vindo de Isaac naquela manhã.
No dia seguinte, chegou atrasado na escola, seus pais haviam brigado novamente, sua mãe tentava esconder um olho com maquiagem e o pai um mancha de batom na camisa.
Mathias tentava se concentrar na aula de português, esquecer dos pais, de Isaac e de todo o desamor que sentia apertar seu peito.
Na volta do intervalo, viu Isaac conversando com uma menina de longos cabelos loiros que parecia estar perto demais. Bobagem, tinha lição de matemática para fazer, abriu seu caderno e sentiu uma lágrima escorrer e aquecer todo o seu corpo ao encontrar no verso de seu bilhete uma resposta:
“Sempre achei que seu rosto não combinava com o nome. Agora sei porquê..Amanhã às 20h no beco, te espero Dorotéia.”
Nunca se sentiu tão animado em toda a sua vida. Colocou sua melhor camisa, gastou metade do frasco de perfume da irmã Lúcia, certificou-se que o pai não o veria sair. Deu um beijo na testa da mãe adormecida e fechou com cuidado a porta da frente.
Chegou e não viu nem sinal de Isaac no beco, teve medo de tudo não ter passado de um sonho ou pior… Seria uma cruel brincadeira? Quando viu dois meninos de sua escola se aproximando com um riso debochado, achou que fosse morrer, que susto levou quando lhe deram um “oi”. Respirou aliviado quando viu que seguiam seu caminho para longe do beco.
De repente sentiu uma mão tocar seu ombro, era Isaac, os dois se olharam em silêncio, tímidos seus corpos se aproximaram e disseram o que não precisava de nenhuma palavra.
Naquela noite Mathias descobriu o que era ser homem.
Os dois se despediram com a promessa de um novo encontro.
Trocavam bilhetes apaixonados sempre assinados com o nome de Dorotéia. Agora misturados por ela, ambos podiam se chamar baixinhos de “amor”. Brincavam que um dia fugiriam juntos e adotariam uma menina para chamar de Dorotéia.
Isaac era filho de pastor, tinha medo de ser descoberto, expulso da igreja e ridicularizado pelos amigos. Tratava mal Mathias em público, o chamava de “bichinha filho da puta”, qualquer palavra raivosa que escondesse o que realmente sentia.
Mathias não se importava, se enchia de si, provava os sapatos e vestidos das irmãs. Ele, que passara a vida com medo da violência do pai, de repente se encheu de coragem, passou a defender a mãe, se viu maior que o pai e dono de uma vida que não sabia que podia existir.
Era mais vivo quando assinava os bilhetes como Doroteia e lia os deixados por Isaac.
Ao passar de meses, em uma manhã tranquila de agosto, véspera de seu aniversário, Mathias estava ansioso, Isaac viajou nas férias de julho, os dois não conseguiram trocar sequer um bilhete nesse período…
A manhã acabou sem que Isaac aparecesse na escola. No dia seguinte chegou atrasado usando óculos escuros e uma tipoia no braço direito.Mathias tentou se aproximar dele, mas só ouviu um “sai daqui seu veado.”
Mais tarde encontrou um bilhete: “ele sabe da Dorotéia…” Mathia chorou escondido no banheiro naquela tarde.
Na semana seguinte a professora anunciou que Isaac havia deixado a cidade e sido transferido da escola. Mathias chorou todas a noites durantes os seis meses de aula que se seguiram.
Não existiam mais Isacc, nem Doroteia… Mathias. também parecia ter deixado de existir. Voltou a se calar, se viu pequeno perto do pai, não conseguia mais defender a mãe que morreu de câncer dois anos depois.
Mathias deixou a escola quando a mãe adoeceu, passou a cuidar dela por todo o período da doença. Suas irmãs já não estavam mais em casa, todas tinham encontrado um amor, casado e fugido para bem longe de casa. Seu pai cada dia mais bêbado, um dia saiu de casa e nunca mais voltou, soube anos depois que foi atropelado e enterrado numa vala comum.
Quando sua mãe morreu, Mathias se matriculou nas aulas noturnas de sua antiga escola, terminou o colegial, vendeu a casa dos pais e entrou num curso técnico de enfermagem.
Sempre que sentia dores de amores partidos, olhava no espelho, imaginava Doroteia e relia os bilhetes de Isaac.
Muitos anos se passaram até que Mathias, já um homem de 70 anos cansado da solidão decidiu alugar o quarto número 05 na Pensão do Farol, era o melhor quarto do estabelecimento, gostava de tomar chá e chorar vendo novela. Se lembrava homem quando chorava.
Dizem que Mathias, assim vivem, por mais 10 anos assim, até que certa tarde teve sua novela interrompida pelai visita de uma mulher de cabelos loiros e olhos verdes. Se apresentou como filha de Isaac, contou que o pai se formou advogado, teve quatro filhos criados na igreja, morreu aos 65 anos de parada cardíaca, descobriu sofrer do coração na adolescência, contou ela. … A moça se chamava Doroteia, tinha os olhos do pai.
Que lindo. Amei o desfecho.
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