quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lara

 Lara




Tinha os cotovelos prostrados na mesa,  um maço de cigarros pela metade, ao lado uns poucos livros e um pacote vazio de biscoitos. Não era muito... Dividia o quarto em uma pensão barata no centro com uma moça de cabelos roxos que nunca encontrava acordada, 


Não era muito bonita ou inteligente, mas se sentia satisfeita por não ser burra nem feia, Embora não soubesse realmente o que significava ser bonita, feia, inteligente ou qualquer outro desses adjetivos que aprendeu na escola… Não se sabia coisa alguma, mas se achava ser qualquer coisa que não cabia muito bem em nenhuma palavra. 


O emprego de balconista não era aquele com o qual sonhava, mas pagava suas contas, e ainda sobrava um pouco… Sonhar é um luxo que seu cartão de crédito não tinha limite para parcelar, pensava. Se achava inteligente quando dizia isso em uma mesa de bar, bebendo cerveja com qualquer cara que topasse pagar. 


Naquela tarde estava de folga e entediada. O dinheiro que tinha na carteira dava apenas para a condução do dia seguinte, e talvez para um café com pão de queijo murcho de padaria. 


Esperava ansiosa pelo dia de pagamento. Não restaria muito depois de pagar a pensão e comprar seus cigarros ,mas planejava uma viagem até a praia. Quem sabe no próximo mês… Ver o mar, sentir os pés tocando a areia. Sentia-se mais leve só de pensar nisso. Sonhar deve ser algo assim, parecido com brisa de mar e areia fofa.


Ela pensava, ensaiava desejar qualquer vida fora das paredes amareladas de seu quarto.Quem sabe um banheiro só para ela, uma amiga que a recebesse acordada, um cachorro, um cara que quisesse algo além de uma noite… . Viagens , roupas, um apartamento, faculdade... Qualquer sonho que a fizesse abrir os olhos  pela manhã, levantar da cama e enfrentar a rua. "Qualquer sonho que me faça aprender a acordar” É poético... Meio estúpido." Resmungou enquanto acendia um cigarro.


Soltando a fumaça olhou para o quarto e a sujeira ao redor. 


Levava uma vidinha chata...Tão poética e meio estúpida como qualquer outra.


Tinha os cotovelos apoiados sobre a mesa e um maço de cigarros pela metade... Fumava e tossia para fora do peito algo com gosto de sonho. 


“Acabou o cigarro”, resmungou.


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