Júlia
-Tia, Julia
-Quê?
-Para onde a vovó foi agora que morreu?
-Foi para o céu…
-E como é o céu, tia Julia?
-Não sei, menina…
-E quem sabe, tia Julia?
-Deus é quem sabe.
-Deus tá onde, tia?
-Que pergunta é essa, menina? Deus tá no céu!
-Deus morreu também, tia Julia?
-…
Júlia, não sabia responder, ela não sabia responder quase nada desde que cresceu. Se admirava com as perguntas da sobrinha, queria se lembrar como era a sensação de poder perguntar qualquer coisa, sem ninguém para apontar o dedo, sem precisar fingir que sabe as respostas, quando só sabe mesmo é repetir feito papagaio as dos outros.
Quando a mãe faleceu sentiu um pedaço dela mesma falecer junto.
Mas não tinha quem respondesse “para onde foi minha mãe?” Era adulta demais para perguntar, já deveria saber sozinha, tinha 40 anos, não 4 como a sobrinha…
Mas se sentia uma menininha perdida, tentando entender para onde foi que sua mãe fugiu que não teve tempo de deixar sequer um bilhete. Sentia tristeza, mas também ódio da mãe por tê-la abandonado assim.
Todos os dias elas limpavam juntas todos os 25 quartos da pensão, desde os 15 anos acompanhava a mãe na faxina. Durante muito tempo teve vergonha de contar para as amigas que morava no quartinho dos fundos, pior ainda seria contar que a mãe pagava seu uniforme da escola fazendo faxina.
Foi o dinheiro da faxina da mãe que pagou seu colégio particular e o do irmão mais novo. Quando Júlia entrou na faculdade, foi a faxina da mãe que pagou o lanche na cantina e as xerox que ela precisava tirar toda semana.
Quando ela engravidou e precisou deixar os estudos, foi a faxina da mãe que pagou o leite e os remédios do bebe. Assim, foi também, quando seu irmão casou e não teve dinheiro para pagar o aluguel.
O quartinho dos fundos da pensão, tal qual o coração da mãe de Julia, sempre teve espaço e amor para abrigar quem precisasse, e os abrigou a todos por seis meses.
Julia não tinha mais vergonha da mãe, tinha saudade.
Cansada do velório e das perguntas da sobrinha, Julia deitou-se no quarto da mãe. O cheiro dela continuava impregnado nos lençóis e travesseiros. Julia fechou os olhos e se deixou adormecer pelo aroma doce do perfume da mãe. ela odiava aquele perfume, mas agora sentir esse cheiro era como ser abraçada novamente por ela.
Naquela noite dormiu um sono pesado, que não dormia desde bebe. Sonhou com o colo da mãe, se viu recém nascida, olhando a mãe amante-la. Ela tinha longos cabelos castanhos, e cantava enquanto a ninava. Julia soltou o peito da mãe e se pôs a chorar. Não era a fralda suja, nem mesmo cólica. era outra coisa, que a pequena Júlia ainda não sabia nomear.
“Dorme, minha filha, Mamãe tá aqui… Tá tudo bem, Juju, mãe te ama. “ Juju parou de chorar e dormiu sentindo o perfume doce da mãe, acordou adulta, deitada na cama, chorou como a criança que sabia ser.
-Luiza, vem aqui com a tia - Disse ela para sobrinha
-Não sei se deus tá vivo no céu, mas quer saber um segredo?
-quero sim, tia julia
-vovô tá viva bem aqui- Apontando para em direção ao peito da menina.
- e aqui também - apontou de volta a sobrinha, em direção ao peito de Julia.
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