sábado, 11 de setembro de 2010

Contando as horas

Não conto às horas que se foram,
Pois horas que se foram não se devem contar,se devem calar.
Não conto os anos que passaram,
Pois estes ainda estão em mim,
Eles não se foram,apenas se somaram a todos os outros que eu já tinha,
Assim como se somarão também os anos que ainda estão por vir,
E mesmo os que não virão,irão se somar.
Se não a mim,que aqui já não estarei,
Mas aos que certamente ainda estarão aqui, à colher prima-veras,invernos e verões...

Quanto a mim, que nunca os colhi ,não me preocupo em contá-los,
Basta-me observá-los de longe
E saber que por aqui estiveram.

Todas as horas,
Todos os dias,
Todos os anos,
E suas prima-veras,verões,outonos e invernos,
Toda a chuva,todo o sol,toda sombra,toda brisa e ventania,
Tiveram para mim o mesmo gosto e fizeram os mesmo estragados.

Estragos que só hoje posso ver em mim,
Que só agora posso sentir.

Horas que só agora percebo ter tido,
Dias que só agora percebo que vivi,

...Anos que só agora sinto em mim,sinto somando-se a mim.

Não;não é o meu aniversário,
E diferença nenhuma faria se hoje fosse o dia em que faço anos,
Pois todos os dias ,se fazem como anos em mim...

Cada dia,hora,semana,mês,e até mesmo cada segundo que respiro,é um novo ano se fazendo em mim,
Cada nascer do sol é um novo sol,mesmo sendo o mesmo sol
Pois é sempre o mesmo sol,
É sempre o mesmo ano,
E é sempre a mesma pessoa a olhá-los,
E ao mesmo tempo é sempre um outro nascer do sol,
É sempre um outro ano.

E eu ...
Já não sou a mesma pessoa,apesar de continuar a olhar para tudo isso, através dos mesmos óculos velhos .
Apesar de perecer a mesma pessoa,
De falar do mesmo modo,
De usar os mesmos ténis sujos,
De ter a mesma voz,
Os mesmo olhos cansados,
Apesar de continuar a rasgar o meu jeans do mesmo jeito,
Apesar de continuar a bagunçar o meu cabelo de propósito,
De ouvir as mesmas musicas,
De ler os meus livros,
E apesar de continuar com essa maldita mania de escrever sempre os mesmo versos tolos,
Que mais parecem uma continuação dos antigos,

[Pois, sempre falam das mesmas coisas...]

Eu já não sou a mesma pessoa,
Já não falo as mesas coisas,
O ténis que sujo,agora já é outro,
A minha voz, já não tem o mesmo tom,
O cansaço dos meus olhos,já não é o mesmo cansaço de antes,
O jeans que rasgo,já não são os mesmos,e nem os rasgos são os mesmos,
As musicas que ouço já não soam do mesmo modo aos meus ouvidos,parecem ter outra melodia ,outro gosto,
E os meus livros,de tanto os reler,já tenho sua linhas gravadas na minha memória,
E seu sentido,já faz um novo sentido em mim.
E até essa maldita mania de escrever,
Já não é mesma,
Nem mesmo a minha letra é a mesma,
Ela está cada vez mais borrada e confusa,
Quanto aos meus textos....
Se estão mais borrados ou confusos do que antes, não sei,
Mas, que já não são os mesmos,não são.
Assim como os anos que vejo passando por mim,não são os mesmos.
E já não os sinto como sentia antes,
E não os conto,como contava antes,
Apenas deixo que venham,
E tragam consigo,seus verões,prima-veras,invernos,e tudo o mais que tiverem para trazer,

E se eles ficarão comigo?
E se me farão estragos?

Tanto faz,
Que venham os estragos!
Que venham os anos,
As rugas,os cabelos brancos,
E até a morte também será bem-vinda,
Não só a física,
Mas todas as outras mortes as quais o ser está inevitavelmente exposto...

Que venham,
Que venham,
Que venham,
Que venham!

Que venha o tempo,
E que ele fique,pelo tempo que quiser ficar.
Que venham os anos, e se não poderem ficar,
Que eles passem por mim,
E que se somem aos que já tenho,
Que venham os anos,
Pois eu ,já não os temo e nem os conto,apenas os sinto...
Apenas respiro as horas,os dias,as semanas...
Apenas respiro a vida,sem medo dos anos que irei perder ou ganhar,
Sem medo de ver os anos se desfazendo na minha frente.
Que os anos se façam e se desfaçam em mim!

2 comentários:

  1. Gostei muito bom, nao esperaria mesno de você.

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  2. Simplesmente incrível. Tua prosa, tua poesia, todos esses versos nos coloca tão próxima de você e de seus sentimentos.
    E sobre as horas, o tempo: bem, o tempo é algo que se conta, mas não é algo com o qual a gente possa contar; ele constrói e nos desconstrói.

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