domingo, 8 de abril de 2012

Abril de 2012
Lucas,

Nunca escrevi cartas, e não sei ao certo o que quero escrever nesta aqui... É provável que eu apenas vá emendando uma palavra na outra, e ela acabe se tornando algo como uma concha de retalhos; confusa e meio melosa.

Não entendo muito bem o que seja isso de escrever.  Às vezes acho que não há qualquer utilidade em fazê-lo, mas acho que a maioria das coisas não possui nenhuma utilidade também...
A vida me parece tão caótica e incerta... E embora não tenha muita cosia acontecendo, ao menos por fora, por dentro me sinto  confusa e inadequada.

Tenho a impressão de que não me adapto muito bem a ideia que a maioria das pessoas faz da vida...

A maioria de nós tem uma vida morna, e se contenta, e até consegue encontrar algum tipo de felicidade nessas vidas mornas...  Mas isso me parece um tanto medíocre... Acordar trabalhar, estudar, comer, assistir a novela das oito, dormir... Reiniciar o ciclo... Parece que falta algo...

Ah... Nem sei direito o que eu estou dizendo...

Você já teve um sonho, algo que quisesse mais que qualquer outra coisa?...

 Às vezes penso que as pessoas que se contentam com suas vidinhas mornas nunca sonham. Deitam suas cabeças em seus travesseiros, igualmente mornos, para dormir seus corpos mornos... E simplesmente não sonham. Ou talvez elas sonhem muito mais do que eu imagine...

Toda pessoa tem tanta beleza dentro de si, tanta vitalidade, mas parece que a maioria não faz ideia disso. 

Passam suas vidas adormecidas dentro delas mesmas... Eu me sinto adormecida também. E ter consciência desse tipo de coisas não ajuda em nada, às vezes penso que melhor seria não ter consciência nenhuma, de coisa alguma. Seria mas leve, isso de ter de carregar a si mesmo, se fosse assim.

A consciência é qualquer coisa semelhante a um verme, ou há uma infecção que vai se alastrando pouco à pouco pela tua corrente sanguínea, até  chegar ao teu coração e arrebentar-te os nervos.

Belos pontos de interrogação temos nós em nossa belas cabeças... Belos pontos de exclamações temos nós exclamando em nossos peitos... Belos pontos finais, por fim, sem fim?... Somos erros gramaticais incorrigíveis. Mas gramatica correta não serve para muita coisa mesmo então... Erre, erre, erre até a última linha, carta ou verso.

Você será um poeta incrível se perceber que poesia de maneira alguma se limita a simples palavras.
A vida de qualquer pessoa é muito mais poética que qualquer soneto jamais será.

Queria mostrar-lhe os meus cadernos, eles tem despejadas em suas folhas tanta coisa. A maioria, já não lembro mais o que significa...  Mais ainda sei que significam algo... E eu queria te mostrar. Apenas te mostrar, é um pedaço de mim que ninguém nunca viu...

E eu menti sobre nunca ter escrito cartas. Escrevi muitas cartas e as enderecei aos meus sentimentos... Isso que são os meus poemas, cartas dos meus sentidos.

São o registro mais honesto ou mais falso de mim?

Penso; que são as duas coisas... Poetas não tem compromisso com a verdade, embora tenham mais dela do que a maioria das pessoas...

Bom é isso, por hora...

      Mirtes Rodrigues 

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