segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Pra ele o mundo ainda é mágico

Ele dobra a barra das calças até os joelhos,
Sua mãe sempre fazia isso, quando o levava para brincar de pular poças d’água na rua...

O céu parece estar desabando lá fora,
E sua tia disse; enquanto dobrava as calças até os joelhos; que algumas ruas ficaram inundadas.
Ela saí e pede para ele esperar em casa.

Mas ele já dobrou as calças até os joelhos para pular as poças...

Ele abre a porta e saí,
Suas havaianas afundam na lama,
E seus pés ficam cheios de sujeira e excrementos
trazidos pela chuva,
Mas, ele, não se importa com a sujeira,
E só quer saber de brincar.

Ele olha para cima,
O sol se escondeu,
E as nuvens já se preparam em outra tempestade.
Mas, ele não quer saber do sol e nem da chuva também.
Só quer pular as poças d’água.

Logo à frente,
Tem uma casa,
Mas, não tem ninguém lá,
As janelas estão abertas,
E dá pra ver uma t.v lá dentro,
Perto de um sofá estragado.
O telhado caiu,
Bem na hora da novela das oito...
Ele, também gosta de novela,
Mas, agora só quer saber das poças.

Do outro lado da rua,
Tinha uma padaria,
E, um cachorro que sempre ficava do lado de fora,
Abanando o rabo e esperando que alguém lhe jogasse um pedaço de pão.
Agora, não tem pão, nem cão...
Mas, há alguém sentado na porta,
Talvez esteja esperando que lhe joguem um pedaço de alguma coisa...

Ele, pensa no cachorro,
Enquanto pula outra poça d’água.

As pessoas passam por ele,
Todas elas têm suas calças dobradas até os joelhos.
Porém, elas não estiveram pulando nenhuma poça d’água.

Passam moças e meninos,
Rapazes e velhas,
Todos com as calças dobradas,
E os rostos suados.
“Estão pulando poças também”. Ele pensa.

Na outra esquina,
Ficava a casa da Joana.
Ele gostava da Joana,
Ela era bonita e fazia bolo.
Mas, onde estará a Joana agora?
Disseram que ela estava dormindo quando aconteceu,
E ainda está...

Duas casas acima,
Subindo a ladeira,
Morava a dona Antônia.
Ele não gostava dela,
Tinha um cabelo engraçado,
Um jeitinho de vizinha chata,
E batia nele às vezes.
“Parecia uma vassoura”. Ele diz sorrindo, lembrando do cabelo dela.

E, continuar a sorrir, enquanto pula outra poça d’água.
Ele escorrega,
E suja o corpo inteiro de lama,
Mas, não quer se levantar,
Fica; assim; todo encolhido na lama.
Depois, começa a se contorcer inteiro ,
Como se coreografasse no barro uma dança de sujeira e excremento.

A garoa voltar a cair,
Ele, então, se levanta,
E vai pulando; mais e mais; poças d’água,
Ele ainda está dançando...

Ele pára por um segundo,
Já está quase chegando em casa.
Seu rosto é pura lama,
E suas calças dobradas até os joelhos...
...Já não se sabe mais qual é a cor.

Agora, ele pula poças d’água no quintal de casa.
O telhado caiu,
A sala encheu de barro.
Ele não estava lá...
Estava pulando poças d’água pela rua,
Exatamente como faz agora,
Enquanto espera que sua mãe o chame para jantar.
Mas, ela não irá chamar.
E, ele sabe.
Ela estava em casa quando o telhado caiu...

A chuva pára enfim,
E uma mancha laranja ameaça rasgar o cinza.

Ele não vê a mancha.
Apenas, pula poças d’água,
Vendo o arco-íris, que vai se formando no céu.
“Parece mágica”. Ele pensa,e sorri,
 Enquanto o mundo vai desabando, gota a gota.

Ele só tem oito anos,
E gosta de pular poças d’água quando chove.

2 comentários:

  1. Nossa,eu estou estupefata,que texto lindo,forte,triste doce e tão atual,
    por mais que eu coloque tds adjetivos aqui não vai ser suficiente,principalmente por me fazer lembrar a questão das chuvas,desabamento de casas que está acontecendo em são paulo e outros estados tbm,o que é triste demais e revoltante,mas enfim,adorei teu texto eles estão cada vez melhores mais líricos,mais fortes,enfim melhores.

    beijos.

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  2. Puta texto tenso esse mirtz...
    Brutal do jeito que eu gosto...
    foda!

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